17.6.10

Vondelpark, Amsterdam

Paciência, Lenine
Um dia destes resolvi apanhar o comboio até à Estação Central de Amsterdam, onde aluguei uma bicicleta e pedalei até ao Vondelpark. A aventura que foi andar de bicicleta naquela cidade que às vezes me faz lembrar Goa (comparação exagerada de emigrante que ainda não se habituou ao caos que é pedalar numa cidade que vive a um ritmo alucinante!), mas em vez de vacas perdidas no caminho vêem-se eléctricos que se cruzam por entre carris entrelaçados, em vez de scooters e bicicletas a caírem aos pedaços vêem-se bicicletas a brilhar, limpinhas e bem cuidadas aos milhares, e carros... que vêem da direita, da esquerda, aparecem pela frente e se colam à traseira da bicicleta de uma forma assustadora... adrenalina não me faltou garanto-vos, mas mantive a postura e mostrei ao mundo que estava no meu elemento (pelo menos esforcei-me ao máximo para o fazer, mas mesmo que nem tentasse acho que em Amsterdam podia pedalar nua que ninguém notava!).
E lá pedalei até não sentir os músculos das pernas, para aqui chegar - Vondelpark! Um espaço maravilhoso dentro de uma cidade linda e mágica, mas onde todos os factores caóticos de qualquer grande metrópole desaparecem. E o que se encontra é silêncio, calma, tranquilidade e paz! Muita paz - de espírito, no ar, nas coisas, no tempo em que tudo se move...
O livro que levava comigo nem chegou a saír da mochila, porque preferi olhar em volta e deliciar-me com as pessoas que naquele dia procuraram o mesmo lugar que eu, quem sabe pelos mesmos motivos ou talvez por outros, nem importa, mas a verdade é que durante algumas horas partilhámos o mesmo espaço e disfrutámos das mesmas coisas que esse espaço oferece. Nem o mp3 player que sempre tenho comigo foi ligado. Porque em vez de me refugiar nos phones preferi ouvir os sons das coisas à minha volta, das pessoas a falarem ao longe e a rirem, do grupinho de hippies que se juntou debaixo de uma árvore a fumar uns cigarros grossos e compridos que cheiravam a incenso (e para bom entendedor, meia palavra basta!), dos cães que ladravam de euforia enquanto donos lhes atiravam bolas ou frisbees para apanharem, e passados uns bons momentos que nem sei ao certo quanto tempo duraram, em que me mantive relaxada deitada no relvado do parque a curtir tudo isto, comecei a ouvir: ".... enquanto todo o mundo espera a cura do mal e a loucura finge que isso tudo é normal, fingo ter paciência...". Nesse momento em que o meu coração quase parou de bater, daquela forma agradável e intensa que acontece quando ouvimos ou vemos algo que nos tira a fala, por reconhecer logo aquela voz tão familiar, amiga e empática desse grande nome da música brasileira que é o Lenine, e por aquela canção ser perfeita em todos os aspectos para aquele momento e aquele dia em que todos os passos que dei me levaram até à calma e paz do Vondelpark, comecei a procurar com o olhar e continuei a procurar com os ouvidos de onde viria a música. E muito depressa vi, não muito longe do lugar onde eu estava sentada, um homem moreno e de gestos e maneiras que mesmo que estivesse com um rádio ao lado a tocar música tradicional russa eu o teria reconhecido como sendo brasileiro, e vi no olhar dele o mesmo que também eu deveria ter naquele momento, naquele dia... um olhar nostálgico, de quem procura alguma calma em algum lugar para se refugiar um pouco da confusão do mundo e quem sabe da confusão em si mesmo, um olhar de paz encontrada à sombra de uma árvore do Vondelpark, um olhar sonhador, e um olhar até um pouco triste... porque se sabe, se sente, e não se tem a menor dúvida, de que aquele momento naquele dia está quase a chegar ao fim. "Juntei-me" a ele naquela canção que naquele momento nos preencheu, nos fez sentido, cantei em silêncio e apenas movendo os lábios as palavras de Lenine ao mesmo tempo que ele, e sem nos dirigirmos um ao outro ou falarmos uma única vez (isso teria estragado tudo, diga-se de passagem), levantámo-nos ao mesmo tempo no final da música, e fomos cada um para o seu lado. Mas sem antes termos deixado de olhar cada um por cima do seu ombro, um para o outro, num olhar cúmplice e empático. De duas pessoas estranhas, que nunca se viram nem nunca mais se voltarão a ver, mas que por breves momentos partilharam algo uma com a outra - sem nada ter que ser dito.
Foi o melhor momento daquele dia que passei no Vondelpark!

2 comentários:

  1. A música tem essa magia de unir pessoas que não se conhecem ao mesmo som. ADOREI este texto...

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  2. Fantastico, adoro a forma como escreves.
    Tens aqui um fa, nao pares de escrever ;)

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