9.12.12

(Faço novamente o post do meu texto "O Vale Escondido", que a pedido e sugestão de alguns amigos, merece destaque. Qualquer semelhança com a realidade, pessoas, factos ou locais não é mera coincidência).
Your Face, Peter Murphy
Estava sentada à beira daquela falésia, com frio.
A vista, o reflexo da lua cheia no mar, o cheiro alto e húmido do ar, e o poder de me sentar à beira daquela falésia naquela noite, foi o melhor que me acontecera nos últimos tempos.
Finalmente ali, sózinha e com frio, encontrei o que tinha perdido. Os tempos que antecederam este momento foram inevitáveis, necessários e tiveram uma razão muito importante de ser. Ou assim gosto de acreditar.
Perdi-me e encontrei-me, lá no alto da falésia, mais perto das estrelas e do céu. E senti-me aliviada.
Mas antes que a minha imaginação me pregue uma partida e eu fique aqui a falar de anedotas reais e confusões da vida que só me fazem rir e sonhar, e que toda a história que é suposto eu contar seja esquecida ou engolida pelos meus pensamentos e defesas, vou começar por ordem cronológica. Não uma ordem cronológica clássica, exacta ou muito pormenorizada; a minha memória é boa, mas são 4 horas da manhã! Vou começar pela minha ordem cronológica, factos são factos. Eles acontecem ou não, ou poderiam até nunca acontecer e cronologia não altera a sua natureza e...
“Ou depende?... Do facto ou da sua natureza? – Concentra-te!”
Aqui sentada, neste topo do mundo, com o vento frio na cara, o cheiro do mar a encher-me os pulmões, com o olhar fixo nas luzinhas brancas e brilhantes que se movem no reflexo da água negra do mar... soa bem! E tudo o que me passa pela cabeça é o bom que deve ser poder voar por este cenário.
Abro os braços contra o sentido do vento e deixo-me sentir suspensa. E é naquele momento, naquele preciso momento enquanto o meu corpo se manteve seguro pelo universo, que a minha mente se permitiu explorar uma área que há muito não era visitada. Eu mesma.

Acordei a meio da noite durante um sono que pensei ser tranquilo, ao som de algo que não consegui identificar. Abri os olhos no escuro do meu quarto e a sensação que imediatamente tive foi a de que a minha cama estava literalmente pendurada no ar, no meio do escuro e do espaço vazio do meu quarto... estendi o braço esquerdo para alcançar o botão do candeeiro e acender a luz, mas não senti a minha mesa de cabeceira no sítio onde deveria estar. Resolvi sentar-me na cama para perceber onde estava, pensei que talvez tivesse invertido a posição do meu corpo durante o sono. Isso nunca me acontecera antes por isso estranhei, mas foi a única razão lógica que encontrei para que tudo aquilo me fizesse sentido.
Sentada na cama, não senti nada nem consegui tocar em coisa nenhuma.
Tive a mesma sensação que se tem quando se acorda num lugar estranho, desconhecido, tão diferente do nosso. Ou quando se está de férias e temos de nos habituar ao acordar num espaço novo.
Tentei pôr um pé no chão. Uma sensação gelada e agoniante desceu-me até ao estômago quando o fiz. Não senti o chão do meu quarto. Senti a garganta a fechar-se num nó pesado e sufocante com a constactação de que não havia um chão para pisar. Tive dificuldade em controlar a respiração e em não deixar o pouco ar que me restava nos pulmões ser expirado de uma só vez.
Ouvia o meu coração a bater num som rápido e abafado e sentia a minha cara a ferver. Tinha as costas frias mas transpiradas e sentia arrepios frios e ondas quentes por detrás das orelhas, na nuca, na alma...
A certa altura, enquanto estava perdida nesta mágoa física e confusão, senti o nó que tinha preso na garganta transformar-se numa bola quente de ar que se deixou caír violentamente no meu estômago provocando-me vómitos. Um enjôo forte apoderou-se assim de todos os meus pensamentos e sensações. Comecei a ficar com os pés e mãos geladas, sentia-me tonta e contraída de medo e os músculos começaram a arrefecer, a ficar doridos, quase dormentes. Consegui não vomitar, embora tenha passado um bom bocado com as mãos no estômago, a gemer de medo, de confusão, e daquele enjôo insuportável.
Não me lembro de alguma vez ter sentido um medo daqueles, tão inexplicável e irracional, nem mesmo quando era pequena e as coisas do mundo ainda eram desconhecidas e assustadoras. O que eu estava a sentir era um terror e desespero muito fortes ao pensar que tudo aquilo era o pior pesadelo que alguma vez tivera, mas sabendo que estava acordada.
Cheguei a pensar que talvez algo no universo tivesse acontecido que destruísse o pequeno mundo em que eu andava a viver nos últimos tempos, algo que tivesse acabado com a raça humana e que eu era uma das infelizes sobreviventes. Ou talvez tivesse eu morrido?
"Se morri estou no inferno de certeza!"
Tentei chamar os meus pais que dormiam no quarto ao lado, mas para além de um ridículo gemido quase mudo não consegui dizer nada.
“Vou esperar que o sol nasça, que haja luz ou algo... vou esperar...”
Enrosquei-me em mim própria, a tremer de frio e a sentir-me tão vazia que podia ser que me tivesse tornado invisível, que me tivesse transformado numa bolhinha de ar que anda a pairar por ali, mas que ninguém mais vê.

Apercebi-me de que tinha finalmente e algures durante aquele pesadelo todo, adormecido quando acordei umas horas mais tarde com a luz do dia a entrar pelos buraquinhos dos estores do quarto. Sempre gostei da luz da manhã que entra pelos espacinhos dos estores. Conheço-a tão bem que consigo dizer só pela forma como invade o meu quarto de manhã como é que o dia está lá fora. Mesmo antes de ter aberto os olhos sabia que o sonho daquela noite tinha sido muito estranho, e tinha sido tão vívido que me sentia como se tivesse um buraco no peito.
Os sonhos sempre me fascinaram, e tudo o que se possa aprender com eles. Sempre tentei guardar até os sonhos mais pesados e difíceis de confrontar numa gaveta na minha memória para voltar a vê-los se quisesse, analisá-los e tentar compreendê-los. Com este sonho fora diferente. Senti que precisava de um espaço muito maior em mim para o guardar e nem estava segura de o queria fazer. Faltava-me a coragem para o fazer, ainda. Para certas realidades temos que ser fortes, e isso era algo que eu não era naquele momento.
Foi uns dez minutos mais tarde, quando já nem estava a pensar no sonho da noite anterior e tomava um duche, que me apercebi de que tinha que ser mais rápida se quisesse chegar a horas.

Cheguei tarde, como se tinha tornado habitual nos últimos tempos, depois de mais uma viagem estranha mas cómica de autocarro. Estou sempre à espera de assistir a um ataque cardíaco no autocarro, ou de ver alguém a explodir de frustração e começar a chorar, de ver o velho nojento sentado à minha frente a atrever-se a dizer em voz alta o que está a pensar enquanto se baba a olhar-me para as mamas, de ver o motorista a entregar--se à raiva de um emprego que detesta e a deixar-se levar, acelarando a fundo o mais que pode causando pânico nos passageiros e caos no trânsito daqueles que só se vêem em maus filmes, de ver a velha com ar de beata a exibir orgulhosamente o vibrador que tem escondido na mala em vez de exibir o enorme crucifixo de prata que tem ao pescoço... mas nunca nada acontece. Todos se sentam num banco de autocarro, todos os dias, consolados com a aceitação da vida que têm e detestam. Uma viagem de autocarro pode ser um episódio tanto cómico como deprimente. Pessoalmente, sou fã de humor negro e uso-o para tirar proveito dos dois. Mas naquele dia também eu me sentei no banco do autocarro a detestar a minha vida. Não me senti no entanto consolada com isso, nem tão pouco consegui usar o meu doente sentido de humor para que me fazer sentir melhor. Quando se sente de verdade, e de corpo e alma, pena de nós próprios não há como nos rirmos.

Dirigi-me ao café da faculdade para esperar pelo pessoal que ainda não tinha saído da aula. Subi as escadas em caracol até ao balcão com dores nas pernas e fui buscar um café e um pastel de nata. Desci as escadas em caracol para me sentar lá em baixo e escolhi uma mesa ao lado das grandes janelas de vidro para me sentar.
“Está sempre o mesmo barulho aqui.”
A Mega FM tocava os mesmos hits comerciais de sempre, acompanhados pelo barulho ensurdecedor de pratos, chávenas, talheres, pessoas a falar, a rir... comecei a sentir-me irritada, tonta e apercebi-me de que estava uma agitação muito forte naquele lugar para o meu gosto. Tudo me começou a incomodar e, naquele dia ainda mais do que nos tempos que antecediam este momento, senti-me como se não pertencesse àquele lugar. Tentei dizer a mim mesma de que estava tudo na mesma e que provavelmente eu é que estava mais sensível naquele dia, tentei não ser tão irrascível, mas acabei por me levantar, pegar nas minhas coisas e saír, deixando um café frio e um pastel da nata para trás, em cima da mesa.
Queria ír lá fora apanhar ar. Acabei por apanhar também um táxi, e à medida que ele se afastava e me levava para longe, comecei sentir-me melhor.

Meia hora mais tarde sentia-me de facto bem melhor. Sentei-me numa colina em Lisboa, encostada a uma árvore. Soube-me bem sentir o cheiro do ar e o quentinho do sol na minha cara. Enquanto fiquei ali sentada, o que acontecera na noite anterior voltou-me à cabeça e apercebi-me do que realmente se tratara. Fora uma manifestação física e mental muito fortes de algo que prefiro neste momento referir-me como saudades de um amor doentio, entre mim e um veneno poderoso.
Mas optei por esconder rápidamente a verdade algures na minha mente. Não é todos os dias que queremos admitir que, por amor ou outra desculpa qualquer, nos deixámos afundar tanto... a um ponto em que física e mentalmente dependemos desse erro.
“Sempre fui uma pessoa tão confiante e acertiva, forte e segura... como é que cheguei a este ponto? Secalhar nunca fui assim tão forte...
Mas naquele momento estava a sentir-me calma, em paz, tranquila, e não queria pensar na verdade dos factos.
Perdi a noção do tempo entre aquele momento e algures durante a tarde. Encontrei-me em casa à hora do jantar, o que me foi transmitido pelo delicioso cheiro a comida caseira e a mesa carinhosamente posta pela minha mãe. Ignorei no entanto tudo isso e, com uma frieza emotiva que hoje não reconheço em mim, disse que já tinha comido qualquer coisa e fechei-me no meu quarto. Ao fechar a porta atrás de mim, passei os olhos pelo quarto... estava tudo no lugar. Senti um pânico enorme ao lembrar-me de como o meu quarto me fizera sentir na noite anterior, e com a ideia de que me pudesse sentir assim outra vez, mas felizmente consegui pôr este medo de lado em menos de 1 segundo. Liguei o rádio e sentei-me em cima da cama, de pernas cruzadas. E fiquei ali sentada, a olhar para as paredes ao som da música. Só queria estar sózinha, que nada nem ninguém me visse. Como um animal assustado.
Pouco mais tarde recebi um telefonema que me fez levantar e saír novamente. Não me lembro sequer de ter dito aos meus pais que ía saír, embora o tivesse provavelmente feito sob a forma de uma mentira qualquer, pois a voz do outro lado do telefone provocou-me uma reacção quase hipnótica.
Naquela noite fomos para Sintra. Estava uma noite que me pareceu na altura como todas as noites deveriam ser. E foi a última noite que passámos juntos.
- Hoje, ao recuar no tempo, apercebo-me de que o facto daquela ter sido a última noite que passámos juntos foi uma escolha minha. E provávelmente a única boa escolha que fiz naquela altura. Andava cansada de ti, de nós, de mim mesma... do veneno que é um amor tóxico. Esperei demais de ti naquela altura e hoje evaluo a situação com uma clareza que na altura não tive, mas isso não importa agora. Tudo o que eu queria de ti também eu não te podia mais dar. Mas isso é para ser falado depois... quando eu me sentir pronta, e tu também claro. Não há pressas, apenas a certeza de que esse momento vai chegar um dia e isso basta-me.

Cheguei a casa quando já estava a amanhecer e preparei-me em silêncio para aquele que viria a ser o dia mais estranho que vivi até hoje. As poucas horas, ou minutos – não consigo precizar, que passei em casa passaram-se sob a froma de um puzzle complicado e confuso que nunca se chega a terminar, como tantas outras coisas na minha vida.
Saí numa pressa cega e doentia. Quando cheguei ao cimo daquela avenida que eu não gosto nem de pensar no nome, hoje para mim uma das ruas mais sombrias e deprimentes da cidade de Lisboa, não conseguia respirar do cansaço, da pressa, da ânsia. E sentia-me também de uma forma que entendo hoje como sendo uma muito estranha satisfação e orgulho doentio, por ter conseguido através de mais umas mentiras e traições, estar ali com dinheiro no bolso. Comecei automaticamente a organizar as ideias enquanto entrava por aquele bairro decadente situado no topo de uma das pequenas colinas da cidade. Um bairro grande, no centro de uma cidade enorme, e que ninguém vê quando passa. Um lugar que muitas pessoas desconhecem. Um bairro num vale escondido.
Senti imediatamente um odor forte a lixo e a peixe podre, senti o cheiro de caricas de garrafas de cerveja que secam ao sol, de plástico velho e sujo, de galinhas, de urina, de águas paradas, e à medida que ía avançando pelo bairro dentro, crescia o cheiro a gente. O cheiro de gente suja, de corpos secos e transpirados, o cheiro de pés que se arrastam descalços em todo aquele lixo, o cheiro de mãos sujas que manipulam tudo o que podem e como podem, o cheiro a dentes que apodreceram e caíram há muito tempo, o cheiro de cabelos espigados que dormem no chão... e súbitamente lembrei-me daquele cheiro seco que se sente quando se entra num cemitério, é um cheiro tipo mofo, um cheiro vazio. Este lugar não era muito diferente de um cemitério. A única diferença é que num cemitério vêem-se flores em vez de lixo e os mortos não andam a deambular de um lado para o outro.
Sempre que entrava no bairro sentia dezenas de olhinhos postos em mim. Olhos interesseiros e de condenação.
Os olhares que me condenavam vinham dos hipócritos que me vendiam o que eu queria, os de interesse vinham dos que queriam um pouco do que eu tinha comprado. E assim, passos arrastados vinham atrás de mim, os passos de alguém que achásse que eu era generosa, se é que se pode aplicar a palavra generosidade para esta situação. Mas normalmente era. Com tudo o que precisava, e mais os passinhos arrastados de alguém que eu permitia juntar-
-se a mim em troca de umas gotas de veneno, dirigi-me para as profundezas do bairro.
Naquele dia resolvi ficar por ali, e levar o meu tempo a escolher um sítio onde me quisesse sentar. E vi ruelas e caminhos do bairro que não sabia existirem. É um bairro típico lisboeta, que cresce por caminhos estreitos, formados por casinhas velhas coladas umas às outras. As portas e janelas das casas estavam na sua maioria abertas, deixando escapar vapores de cheiro a comida e a transpiração para a rua.
Mais abaixo na ruela em que me encontrava, enquanto continuava a andar, vi um grupo de homens velhos sentado à porta de uma das casas, usando uma grade de cervejas com uma tábua velha de madeira por cima como mesa, a jogar às cartas. Eles parecem nem ver-nos passar, o que acentuou ainda mais a minha ideia de tudo naquele lugar ter um ritmo tão próprio. Por uma fracção de segundos cheguei a duvidar de que eu estava realmente ali. Um grupo de crianças jogava à bola numa praceta ao fim da rua e fez-me desviar o olhar. Elas sim, viram-nos passar e fixaram a atenção em nós, com aquele olhar que só as criancas têm. As crianças deste bairro tinham um olhar diferente das outras que conheço, um olhar de quem cresceu depressa demais, um olhar muito cru. Percebi que não só nos viram passar, como sabiam perfeitamente o que estávamos ali a fazer. Senti vergonha, baixei ainda mais a cabeça e apressando o passo fugi imediatamente para uma rua à esquerda, que se dirigia a um pequeno monte coberto de relva verde e árvores de fruto. Era bonito. E era para lá que eu queria ír naquele dia. Mal virámos à esquerda senti um cheiro fortíssimo a água morna e a roupa lavada com sabão em tanques de cimento que seca ao sol. Havia água a escorrer pela rua abaixo, criando poças de espuma. Mulheres gordas vestidas com batas às flores e de chinelas nos pés, gritavam umas para as outras em vez de falarem enquanto estendiam a roupa em arames enferrujados com molas de plástico coloridas. Por um momento os meus olhos viram tudo a preto e branco, com excepção das molas da roupa, não sei porquê. Outras mulheres, igualmente gordas e de batas e chinelas, lavavam lençóis nos tanques de cimento. Cheirava imenso a sabão azul e isso fez--me lembrar por ¼ de um segundo da minha avó, e da imagem que tenho de quando eu era pequena e a observava, também de bata e chinelas a estender a roupa ao sol, num jardim coberto de lindos limoeiros em flôr da sua casa fora da cidade.
Algumas daquelas mulheres viram-nos passar e optaram por ignorar-nos, outras tentaram impingir-nos mais veneno, com um sorriso sádico nos lábios.
“Esta gente vive aqui...! Bem, há algumas merciarias, tascas, uma escola, este bairro é como uma aldeia... dentro da cidade... esta gente vende droga e nem tem uma máquina de lavar?” Estava tão envolvida com estes pensamentos tão distorcidos quanto o lugar onde eu estava e toda aquela gente, quando me bateu brutalmente a ideia de que estava apenas a dez minutos de distância da casa em Lisboa onde tinha crescido e vivido toda a minha vida. Esta ideia causou-me uma dôr e um desconforto enormes e por isso abandonei-a muito rápidamente. Lembro-me de ter tido a sensação de estar a andar por ruas num universo paralelo. Com a sensação de que o meu corpo e os meus pensamentos se estavam a mover num tempo diferente das minhas emoções ou de tudo o resto que era vivo e existia no universo, continuei a andar em direcção ao tal monte relvado com árvores de fruto, que eu tinha visto ao virar naquela tal rua à esquerda. Consegui ver que um pequeno braço de água se movia, vindo algures do cimo do tal monte e passando pelas árvores de fruto, perto das quais me queria sentar. Nesta caminhada que estava a parecer não ter fim devido à ansiedade que sentia, não pude evitar sentir pena dos animais que vi nas ruelas do bairro. Cães e gatos, todos eles com um ar esfomeado e perdido, e tal como eu, a farejar um lugar no qual se pudessem sentir melhor. E também neles se lia vergonha no olhar pesado e opaco.
Começámos finalmente a subir pelo monte, sem dirigir uma palavra um ao outro, mantendo o silêncio desta caminhada. Dirigi-me na direcção do tal braço de água que se movia calma e silenciosamente passando perto de uma árvore. Ao chegar ao pé da árvore olhei para a sombra que com a ajuda do sol formava no chão... tinha a forma de uma mão e deixei-me caír nela de joelhos.
O meu corpo movia-se mecânicamente enquanto a minha alma vazia se preparava para aquele ritual doentio. Uma brisa trouxe-me um cheiro às narinas que me lembrou campismo selvagem. Nesse momento já só ouvia a minha respiração e o meu coração a bater violentamente.
Peguei na carica, mordi o nó dos saquinhos com o pó, senti um gosto amargo na língua quando o nó se partiu, deitei o pó na carica, a água e umas gotas do limão deixado ao sol... o cheiro é intenso e mal posso esperar para provar aquela mistura de ingredientes.
Enrolo o meu cinto à volta do meu braço direito por cima do cotovelo, e aperto-o com força. Com a ajuda do meu pé esquerdo seguro e aperto a ponta do cinto no chão, causando pressão no braço, dificultando a circulação do sangue e fazendo a veia dilatar. Estou nesta altura com a seringa entre os dentes, sinto a veia com a ponta dos dedos da mão esquerda e sei que vai ser à primeira.
Uma gota de sangue aparece dentro da seringa e mistura-se com a droga, criando uma côr acastanhada quando a agulha encontra a veia. Com o dedo indicador empurro a bomba para baixo e fico a ver toda a droga a entrar-me no sangue. Um jacto de sangue cai-me aos pés quando retiro a agulha do braço, limpo-me com os meus lábios, levanto-me num movimento rápido e fico a sentir.
Tudo pára, tudo fica quieto, calado e em silêncio. Nada se move, nada se complica, nada sai do lugar e fica tudo como está. Fica tudo na mesma, menos eu. E isso parece-me ser bom na altura. Oiço o meu coração num som rápido, que não soa nada ao bater de um coração, mas mais a uma pandeireta. A água do riacho move-se deixando um rasto de som metálico, expiro uma boa dose de ar, e a única coisa que me apercebo sentir é alívio.

Foi essa sensação de alívio que me fez naquele dia não querer parar. Havia uma força a empurrar-me para fundo e hoje, ao olhar pra trás não sei muito bem como é que tudo se passou. Era uma força que me empurrava e eu, sem nenhuma força própria a deixar-me levar.
Parece-me agora tudo tão distante, quase surreal... como um filme de terror em que eu era a personagem pincipal.
Uma personagem principal, fraca e perdida, longe de ser uma heroína, que escrevera um roteiro às cegas sem saber o que aconteceria no fim. O episódio final estava inteiramente nas minhas mãos, o que era naquela altura o problema já que estava gasta de ideias, de sentimentos e de palavras novas. O que diferenciou aquele dia de tantos outros que seguiram o mesmo caminho foi eu perceber muito claramente que era alívio que eu sentia sob o efeito de “poções mágicas”. A partir daí não foi complicado perceber donde isso vinha e pareceu-me tudo muito mais simples. Tão simples que ainda hoje não entendo como tive de andar tanto para o perceber. Deixei-me cegar quase irremediavelmente.
A realidade magoava-me, o ritmo das coisas e das pessoas à minha volta fazia-me sentir perdida. Quando isso desaparecia sentia-me aliviada, e de alguma forma inexplicável feliz.
Às vezes é mais fácil fugir da realidade do que enfrentá-la e foi então que a minha mente envenenada me pregou mais uma partida. Devia ter saído dali e voltado para o meu mundo e confrontar as coisas que eram difíceis para mim, mas esta ideia não me foi dada a ver na altura como sendo a melhor. E por isso fiquei. Estava a precisar de trazer mais qualquer forma de calma, de paz e silêncio. Fiquei, sem sentir e sem pensar. Continuei ali perdida, sem nem seuqer querer saber onde ou como me poder encontrar.
E como não estava a conseguir sentir, já não me sentia aliviada. E isso fez-me percorrer todo o mesmo o caminho, em ordem inversa, passando pelas mulheres que ainda tratavam da roupa, pelas crianças que jogavam à bola, e pelos velhos que jogavam às cartas, até à pessoa que me pudesse vender mais. E voltei para o mesmo sítio, no cimo do monte. Foi assim que eu não parei naquele dia.

Lembro-me de ter sentido algo parecido com a sensação de acordarmos de manhã. Os olhos ainda não se abriram, ainda estamos meio a sonhar, e começamos lentamente a esticar uma perna, depois a outra, os braços... mas não consegui abrir os olhos, ou melhor, acho que a certa altura estavam abertos, mas eu não conseguia ver nada. Pareceu-me ouvir passos, uns passos arrastados de alguém a afastar-se. Senti-me confusa, mas devido ao efeito venenoso que corria no meu sangue, sentia-me bem. Ao mesmo tempo sentia que algo estava diferente. Comecei a ficar com frio e senti-me a desfalecer.
“Vou desmaiar?...”
Mas não desmaiei. Fiquei ali deitada, não sei ao certo por quanto tempo, sem me conseguir mexer, sem conseguir falar, sem conseguir ver. A única coisa que eu ouvia era um som que me fez lembrar de duas lixas a rasparem uma na outra, um som seco, arrepiante e ensurdecedor. Foi durante mais uma tentativa de mover o meu corpo que me apercebi que esse som estava a ser transmitido pelas minhas pernas a arrastarem-se no chão. Estava a tentar mover-me, mas sentia-me impotente e não estava a conseguir. Tinha o corpo pesado estendido no chão quente e sujo. O bonito monte relvado e verde com árvores de fruto parecia agora um lugar bem diferente. Cheirava a terra seca e relva morta... este cheiro activou-me a memória e fui bombardeada com uma série de outros diferentes cheiros, começando a lembrar-me de odores fortes como o de lixo, peixe podre, caricas de garrafas de cerveja que secam ao sol, plástico velho e sujo, galinhas, urina, águas paradas, gente suja... e foi então que todo um conjunto de memórias visuais me bateu como uma forte dôr de cabeça e finalmente reconheci onde estava.
Passado um bom bocado, consegui finalmente mover-me, levantar as costas e sentar-me lentamente. Sentia-me tonta, transpirada, e enjoada. Sentia-me suja.
Quando comecei a conseguir ver qualquer coisa ainda estava tudo desfocado, mas mesmo assim a minha atenção focou-se em algo que estava a alguns metros de distância de mim, à minha frente... parecia um monstro! Esfreguei os olhos com ambas as mãos e fiz um esforço enorme para perceber o que era aquilo que estava ali tão perto, a olhar na minha direcção. Vi um rosto esquisito e feio, com uns olhinhos pequenos a fixar-me. Senti-me assustada e tive que arranjar forças para me pôr de pé e fugir dali. Quando o consegui fazer, senti todo o sangue do meu corpo a subir-me à cabeça numa tontura e à frente dos meus olhos tudo se transformou numa mancha negra. Consegui recompor-me em alguns segundos e quando o fiz tive a sensação de ter acordado de um pesadelo. Olhei à minha volta e vi que estava tudo na mesma, o monte coberto de relva verde, árvores de fruto e um riachozinho... nada se tinha alterado. A única diferença que notei na altura foi que eu estava sózinha.
“Os passos arrastados a afastarem-se”, lembrei-me. Um ser estranho tinha-me deixado para trás, depois de algo ter corrido de forma inexplicável. Naquela altura secalhar também eu teria feito o mesmo, estando no lugar dele. Não sei.Talvez. Sim, muito provavelmente. Fui confrontada com a natureza da raça humana e consequentemente com a minha própria natureza. No entanto fiquei surpreendida com o facto das minhas coisas ainda estarem comigo. A minha mala e carteira com ainda algum dinheiro estavam ali. E o facto de me ter surpreendido com isto, foi mais uma confrontação com a natureza da raça humana, com as expectativas que eu tenho dela e, consequentemente mais uma vez, comigo mesma. Teria eu na mesma situação, não só também virado as costas mas como também levado tudo o que pudesse comigo? Não sei. Talvez. Sim, muito provavelmente.
Pensei, ao tentar colocar as minhas coisas e ideias em ordem para saír dali, que tivesse comprado algo falso, mas muito depressa convenci-me da verdade. “Eu não parei”. Tinha que saír daquele sítio.


Ao voltar-me para o caminho de regresso, congelei num arrepio de medo ao ver um cão morto, colado ao chão a alguns metros de mim... não o tinha visto quando ali cheguei! Mórbido, aquele cão estava ali estendido, com a cabeça virada na minha direcção e os seus olhinhos pequenos, ausentes e vazios de brilho fixavam-me. Houve qualquer coisa na minha cabeça que se esclareceu naquele momento. Foi como se no olhar morto e vazio daquele cão eu tivesse visto o reflexo do vazio que eu própria sentia... um vazio que me fez lembrar um pano fechado no final de uma peça de teatro. Um vazio que se via não só no meu olhar, mas que estava meu espírito, em mim. E vieram-me lágrimas aos olhos, tão carregadas de sofrimento que me cegaram, e com elas imagens dos meus pais, da minha irmã, daqueles poucos amigos que eu realmente amo e traí, dos lugares bonitos por onde já andei e de lugares que ainda não conheço. E uma imagem de mim mesma apareceu-me em frente dos olhos... e lembrei-me finalmente de quem eu realmente era. Aconteceu então algo muito forte nesse momento, algo que há muito não acontecia. Fiquei ali, nem sei por quanto tempo, a chorar, abraçada a mim mesma e sem saber muito bem o que pensar ou fazer.
Foi bom chorar naquele dia, daquela maneira. Foi como uma boa estalada ou um mergulho num mar gelado!
Já estava a ficar escuro, e com os olhos inchados e doridos resolvi ir-me embora. Senti uma saudade enorme de casa e da sensação quente e calma que casa me trazia, mas ainda não era a altura...

Vim para aqui, para o cimo desta falésia sentir o vento na cara. Físicamente não me sinto bem, mas é normal. Mais tarde irei para casa e tudo ficará melhor.
De resto, sinto-me muito frágil e assustada, como alguém que sobrevive à queda de um avião. Mas sinto-me aliviada, sinto-me mais perto de mim mesma outra vez.
Uma grande amiga minha sempre disse que quanto mais fundo é o mergulho, maior e mais forte é o impulso para voltar ao cimo. Acho que hoje esta frase me faz finalmente sentido.
Entendo finalmente quem sou, onde estive e porquê. E o mais importante, o motivo de querer voltar – a mim, para mim.
Acredito cada vez mais, ao olhar para o passado, que não há necessidade de me magoar pelos erros que cometi. No fundo, boas ou más não são as nossas escolhas que nos definem – o que define quem somos é como encaramos esses erros e a forma como os usamos para no futuro sermos mais sábios, mais fortes, mais nós mesmos.
Posso dizer que nunca soube tão bem como sei hoje quem eu sou! E por me lembrar de onde venho e por onde já andei, sei cada vez melhor onde quero estar e ír a seguir.

(escrito em Maio 2004 - quatro anos depois dos acontecimentos acima descritos, quando consegui finalmente pôr em palavras uma das experiências mais marcantes da minha vida)

12 comentários:

  1. Acho que já traduzi isto em tempos idos... Bom texto. E escrevo isto a menos de um quarteirão do "vale escondido" (que já não está tão escondido quanto isso) Beijos

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  2. parabens por teres conseguido escrever isto tudo. fizeste-o muito bem foi como tar a ver um filme, de terror em alguns momentos! és uma vencedora sim senhora! e um exemplo, uma inspiraçao, uma corajosa e uma pessoa linda.
    obrigado pelo mail de ontem ;)

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  3. Joana L.25.11.09

    A navegar pela internet deparei-me com o seu título "Vale escondido" que me deixou curiosa. O título, só por si, é brilhante. Li o seu texto, com toda a sinceridade fazendo uns intervalos pelo meio (dada não só a extensão do texto, mas o conteúdo principlamente). Este texto é parte de um livro ou texto solto? É ficção ou realidade? O seu texto impressionou-me e gostei bastante. A sua escrita é excelente e os factos descritos impressionantes. Óptimo blog!
    Meus melhores cumprimentos,
    Joana Lemos (jlemos44@gmail.com)

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  4. Sempre te consegui "ver" mesmo sem te conhecer,mesmo aí,de longe,arranjas tempo para me dizer sempre algo e dás me muita força,amiga,desejo-te o mesmo que desejo para mim,a felicidade,pensa no teu passado como uma lição,um caminho que teve que ser assim para te tornares na pessoa linda que és hoje,que o teu caminho seja ilumindao sempre,assim como a mal se propaga entre os Humanos,assim se propaga também a voz do Amor entre as nobres criaturas....

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  5. Texto longo mas valeu a pena ler.Não fazia ideia que tinhas passado por esta situação,no entanto fez-me recordar muitas situações que vi de perto.Nunca na primeira pessoa,mas garanto-te que já ouvi o coração de alguém a bater como uma pandeireta!
    Orgulha-te de quem és e do teu passado.foi ele que te tornou assim! :)

    um beijo e parabéns pelo texto!Adorei..mesmo!

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  6. Gostei especialmente deste texto.:)

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  7. Carlos, traduziste e fizeste-o muito bem! É engraçado eu fazer traduções de textos, mas quando chegou o momento de traduzir as minhas próprias palavras achei tão doloroso que não passei das primeiras 20 linhas... não pude evitar sentir que estava a "assassinar" o meu texto...
    Bjs

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  8. Dantez, obrigada pelas palavras :)

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  9. Bom dia Joana, "O Vale Escondido" é um texto solto, como todos os outros que escrevo já que ainda não me aventurei a escrever um livro! Obrigada pelo elogio à minha escrita, neste texto que também eu adoro e em que qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência ;)

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  10. FritZ, olho para estas coisas passadas com prazer e até saudades, por mais que possa parecer estranho. A verdade é que aceito o meu passado de braços abertos, tal como vivo o presente e olho para o futuro. Sou quem sou devido a tudo o que fui, e isso basta-me :)
    Kusjes xx

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  11. Oi "Siri", obrigada! :)
    Sinto exactamente o que dizes: orgulho - pelo que fui, pelo que sou hoje, e por tudo o que acredito que serei um dia! O crescimento interior está sempre a evoluír felizmente!
    Bjs grandes xx

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  12. Laetitia, obrigada e volta sempre! :)
    Bjs

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