6.10.09

Adeus constipação!

Hoje é o primeiro dia depois de uma semana miserável que me sinto finalmente melhor. Estar doente é uma merda! Muitos espirros, ataques de tosse, lenços de papel, cházinhos de limão e spray para o nariz depois, sinto-me agora como se tivesse de ressaca! Uma ressaca de uma constipação holandesa, como gosto de lhe chamar, uma vez que embora não seja gripe e não nos dê febre, deixa-nos incapacitados de funcionar normalmente. Felizmente tive uma óptima ajuda aqui em casa, um enfermeiro de serviço e cozinheiro, mas a verdade é que por mais que goste de alguns carinhos e atenções, quando estes vêm por falta de capacidade da minha parte de fazer seja o que fôr por mim mesma, a frustração e irritação que sinto são maiores do que agradecimento! O que faz de mim uma doente insuportável, diga-se de passagem. Ao fim de um ou dois dias a canjinhas preparadas com muito amor, carinhosos gestos e esforços para fazer com que eu me sinta o melhor possível, farto-me. Não só me farto de estar doente, como me farto da pessoa que tenta cuidar de mim... (bitch da minha parte, eu sei!)
Se o estar doente nunca durasse mais do que 48 horas até era bom, de vez em quando, ficar de cama! Como não é o caso, neste momento sinto-me agradecida por já me sentir melhor, e também pelo apoio que recebi nestes dias que passaram.
Desculpa-me se fui uma chata (e eu sei que fui!) e obrigada por não desistires nunca de mim!

27.9.09

Acordar assim...

Hoje de manhã a minha vizinha fez uma piada ao ver-me pendurada na janela do meu quarto, ainda de pijama e de máquina fotográfica nas mãos. Para ela deve ter sido uma visão um pouco cómica, mas a visão que eu tive ao olhar lá para fora quando acordei foi quase mágica e impossível de deixar escapar.

Quando era mais nova gostava de dormir muito. Quanto mais melhor! Levantar-me da cama ao meio-dia era algo que acontecia regularmente, e muitas vezes deixava as coisas importantes que tinha para fazer para a noite. Fosse estudar para um exame (o que normalmente só acontecia de véspera!), fazer trabalhos de grupo com colegas, ír ao cinema ou saír para o Bairro Alto acontecia sempre depois da meia-noite.
Hoje em dia, mesmo que quisesse dormir até ao início da tarde não consigo. Mas não me queixo, porque não é por insónia! Não consigo porque ao abrir os olhos de manhã sinto uma vontade enorme de acordar para o mundo, de olhar lá para fora e de começar o dia com uma vitalidade que dantes só tinha à noite!

É mais uma diferença entre ter-se 18 ou 33 anos, mas ainda bem! Se eu dormisse até ao meio-dia perdia este espectáculo de cores e formas que o céu do campo holandês me dá todas as manhãs!
(photos by PiXie)
Bom dia!



Tens uma pastilha elástica?

Hoje passámos a tarde em Alkmaar, uma cidade de que gosto muito aqui no norte da Holanda, não muito longe de onde vivo. Andávamos tranquilamente pelas ruelas movimentadas a apreciar o ritmo de um sábado à tarde, onde as pessoas se lembram de invadir lojas à procura de coisas que não precisam. Soa a um pesadelo, admito, pelo menos para mim que sou daquelas pessoas que detestam andar em lojas e quando preciso de alguma coisa vou directa ao assunto e saio dali o mais rápido possível! Mas ontém até soube bem. Estava um dia de começo de outono óptimo, de sol e temperatura agradável. O ambiente de Alkmaar é muito simpático (gezellig!) e consegui passear naquele movimento todo de mãos dadas com o Jules sem me sentir agitada nem apanhar nenhuma dor de cabeça, o que qualquer um que me conheça sabe que é raro (a falta de agitação num ambiente destes e as mãozinhas dadas!). Resolvemos ír beber um chá e comer uns scones numa esplanada perto da rua principal de lojas, para a seguir darmos uma vista de olhos naquela lojinha de livros por onde tínhamos passado uns momentos antes, muito acolhedora e convidativa, com estantes de madeira antigas, prateleiras cheias de lombadas misteriosas e livros espalhados pelo chão e amontoados até ao tecto! Um pouco desarrumada, é verdade, mas com o feeling ideal de se estar não numa loja, mas mais na sala de estar de um coleccionador de livros. Perfeita!
Foi a caminho da esplanada onde íamos lanchar que passámos por uma rua muito estreitinha, de paredes de tijolo antigas, e cheia de cores e relevos. Olhei bem à minha volta e a minha reacção foi de espanto! Esta rua chama-se "kauwgomsteeg" (a rua da pastilha elástica) e as paredes estão cobertas de pastilhas elásticas - brancas, azuis, cor de rosa, vermelhas, verdes, pequeninas tipo chiclet ou monstruosas tipo gorila. Uma visão estranha e ao mesmo tempo fascinante!

(photo by PiXie)
Embora ninguém me saiba dizer como esta rua começou, o porquê, ou quem terá sido o primeiro maluco a começar esta bela tradição, a verdade é que esta rua é vista como uma obra de arte feita por todos ao longo dos anos, e como muitos dizem "é melhor do que atirar as pastilhas elásticas para o chão!" (concordo, não há nada mais irritante do que um belo passeio pela cidade ser interrompido com uma cena de pastilha elástica colada à sola do sapato! Só o cócó de cão é que bate essa mesmo!).



(photo by PiXie)
Por isso, se um dia tiverem por estes lados e resolverem visitar Alkmaar (o que eu aconselho), não se esqueçam de visitar esta ruela, e se ao passearem pela cidade tiverem que deitar fora a pastilha elástica que têm na boca e já perdeu o gosto, façam-no na "kauwgomsteeg" em estilo, deixando um balãozinho cor de rosa num espacinho livre de parede, como eu fiz hoje.



(photo by J.Otto)



25.9.09

Diferenças culturais (RIP)

Secalhar este não é um assunto apropriado para começar o dia, nem para terminar, mas como durante a tarde tenho outras coisas para fazer e estava a pensar nisto (não sei porquê), aqui vai.
Um funeral. Ocasião triste em toda a parte do mundo. Dia em que um grupo de pessoas -amigos e familiares, se juntam à mesma hora e no mesmo local em homenagem a alguém que se perdeu. Sempre cedo demais, sempre uma perda irreversível.
Quando vim viver para a Holanda dei por mim a pensar mais na morte de pessoas queridas do que alguma vez tinha feito antes. Não por morbidez, mas pelo simples facto de estar longe e de o medo de perder quem se ama se tornar maior ainda devido a essa distância. Infelizmente, tive que me meter num avião e regressar por uns dias a Portugal para atender a alguns funerais. Nunca é algo que se queira fazer, mas nunca é algo que se queira perder também. Estando aqui a viver há quase 9 anos, também passei por alguns "funerais holandeses". O primeiro foi uma mistura de emoções muito estranha - estava num funeral de um amigo, o que por si é arrasador, e passei o tempo todo a sofrer um choque cultural gigante. Nunca tinha visto nada assim. Música, slides de fotografias de momentos que marcaram a vida daquela pessoa, palavras de amigos e familiares, choros mas também risos ao relembrar momentos da sua vida, e depois da cerimónia um encontro de todos num café local onde foram servidas bebidas e petiscos. Com estas bebidas dispertaram ainda mais memórias e histórias bonitas foram contadas. Tudo com gosto, com tacto. Uma verdadeira homenagem à vida que aquele amigo teve, ao contrário de um silêncio triste que no fundo não passa de um grande desperdício de tempo.
Nunca fui a muitos funerais, mas aqueles a que tinha ído (enquanto vivi em Portugal) eram todos iguais. Velório: um encontro entre familiares e amigos numa sala mórbida de uma Igreja, cadeirinhas colocadas em volta de um caixão coberto de flores e com uma fotografia do falecido em cima, lágrimas, olhos postos no chão e aquele silêncio capaz de tirar o ar a qualquer um. Funeral: uma marcha de luto atrás do caixão, um andar em silêncio a caminho de uma cova. Ai de quem fale ou sorrie, isso não fica bem! Um padre velho e caquético a dizer palavras em honra daquela pessoa que ele nunca conheceu, um hipócrita a tentar consolar todos presentes usando a velha frase : "Deus assim quis" e a contar histórias que não interessam a ninguém sobre o que a bíblia ensina no assunto vida e morte. Depois de toda esta tristeza, lá se deixa o caixão descer à terra e finalmente podem todos ír para casa. Beijos e abraços de despedida ao portão do cemitério e lá avançam todos para os respectivos automóveis para saír dali o mais depressa possível. É normal, ninguém gosta de funerais. Ninguém se sente bem numa ocasião daquelas. Mas o que as pessoas se parecem esquecer é que não se está ali por nós próprios. Está-se presente num funeral de alguém que se ama para recordar, honrar e se despedir de uma forma digna daquela pessoa. Foi isso que sempre senti estar de errado com funerais, para além do facto de serem funerais, mas esses são inevitáveis e temos que fazer o melhor das situações.
O meu primeiro funeral aqui na Holanda foi um choque, no sentido de que nunca tinha visto nada igual nem mesmo parecido, mas se há pessoas que compreendem o significado das palavras "homenagem à vida" que alguém teve, são os holandeses.
Quando morrer quero voltar para Portugal, mas deixem os padres de lado e recordem-me com sorrisos. Não faz mal sorrir ou conversar num funeral, com respeito e sentimento. É bem pior ter medo de dizer algo e acabar-se à porta do cemitério a falar do tempo ou de futebol.

24.9.09

Planeta Tokyo

Embora já tenha viajado bastante, o mundo é tão imenso que há sempre lugares a chamarem-me para uma nova paragem e aventura. Estou sempre a descobrir um interesse e uma curiosidade gigante por lugares desconhecidos, sítios distantes e misteriosos. Um lugar onde gostava imenso de ír é ao Japão.
Deve ser um mundo único, diferente de tudo o que sei, de tudo o que já vi e de todas as coisas que conheço. Quando vi o filme "Lost in Translation" senti-me quase lá. O silêncio que se ouve por falta de compreensão, os olhares das pessoas que muito raramente se cruzam, os cheiros de comidas estranhas que para tantos pode ser assustador, são apenas alguns pequenos aspectos desta cultura que me transmitem uma sensação de paz enorme, uma ideia de estar mais próxima de mim mesma... mais afastada de tudo o resto e num processo de aprendizagem, seja ele qual for!Para algo completamente novo, diferente, alucinante e inesquecível, acredito ser Tóquio o destino certo. Mais surrealista não existe.
Quando vejo imagens desta cidade coberta em luzes de neons, os formigueiros de pessoas que se movem em tantas direcções, a forma como tudo ali vive de uma maneira tão intensa, as roupas e os cabelos coloridos, os sorrisos tímidos das pessoas, a forma como as regras de etiqueta são prezadas, os arranjos artísticos feitos de flores ou de sushi, as lojas de gadgets, sinto-me tão fascinada que perco a capacidade de pensar, entrando muito depressa num mundo de sonho e fantasia.

Que mais podia desejar do que uma viagem assim, que me daria muito mais do que umas férias, mas uma experiência de vida, um ensinamento sobre uma cultura tão rica e sobre um mundo tão diferente do meu. Que forma melhor de me deixar surpreender? De me afastar de tudo o resto e de descobrir o que aquele lugar tem para me dar - sobre ele mesmo e sobre mim. Acredito que quanto mais nos afastamos do que conhecemos, do que tomamos como garantido, mais próximo de nós chegamos.
Enquanto a tecnologia ainda não me permite entrar numa nave espacial e explorar o espaço, ír a Tóquio é o mais parecido que encontro com uma viagem a outro planeta! Não sei para quando esta viagem será, mas será. Disso eu sei!
E até lá vou-me deixando perder em imagens, cores, sons, formas e todos os detalhes tão peculiares desta cultura tão diferente da minha...


またいつかね (mata itsuka ne)









23.9.09

Comédia no consultório médico

(Não, não é uma anedota. Isto aconteceu mesmo. Chamemos-lhe uma anedota da vida real!)
A minha irmã sempre teve uma fobia incontrolável de agulhas. Para levar vacinas ou tirar sangue, foi sempre um drama! Tonturas, tensão arterial baixa, desfalecimentos... só vos digo que nunca a vi em nenhuma destas situações de cabeça fria (nem de cabeça levantada, se ela não se deitar a tempo cai redonda no chão!). Ontém ao falar com ela ao telefone, também eu caí no chão, mas de riso! Ela foi com os 2 filhos, os meus sobrinhos de 5 e 3 anos, levar a vacina para a gripe. Como os miúdos estavam nervosos e com muito medo, ela achou por bem acalmá-los dizendo, com o carinho e sorriso tranquilizantes que qualquer mãe usaria na mesma situação : "A mãe leva primeiro, sim? E podem ver que não custa nada!". Depois de ter passado por duas gravidezes e partos, ela própria acreditou no que disse. Claro que o que se passou a seguir foi tipo cena saída directamente de um filme de comédia! Mal levou a "pica" no braço, começou a sentir-me enjoada e com tonturas, tendo que pedir ao médico para se deitar imediatamente para evitar desmaiar. Estava mais branca do que farinha e com lágrimas nos olhos. Olhem que bom exemplo, "vejam como a mãe se porta bem, isto não custa nada!" Ahahah! Traumatizados e provavelmente com medo de agulhas para o resto da vida, os meus sobrinhos desataram a berrar, de pânico por verem a mãe naquele estado, e na antecipação da vacina que íam levar a qualquer momento. A minha irmã teve que ajudar a enfermeira a segurar no meu sobrinho mais novo, que com uma força inacreditável para uma criança de 3 anos de idade, tentou de tudo para não levar a "pica"! O mais velho foi mais corajoso, mas mesmo assim chorou tanto que 1 hora mais tarde ainda estava com os olhos inchados!
Ao fim do dia a minha mãe ligou-lhes e perguntou com interesse e curiosidade de avó, como tinha sido a ída às vacinas. Ao que os meus sobrinhos responderam: "Levámos a "pica" avó... correu bem... a mãe é que se portou mal."
Ahahahah! Genial.

22.9.09

O meu quarto

(photo by V., 1998)
Quando penso no meu quarto penso no conforto e na privacidade que ele sempre me ofereceu. Um espaço muito meu onde sempre guardei coisinhas especiais para mim - bilhetes de ídas a concertos ou de cinema guardados numa caixinha de cartão, cartas escritas por amigos e bilhetes trocados em salas de aula, fotografias de momentos divertidos e inesquecíveis, cd's, livros, diários antigos que ainda cheiram bem, souvenirs que me lembram viagens a destinos distantes, posters de filmes e quadros enigmáticos... quando penso no meu quarto sinto saudades de me encontrar naquele espaço só meu, onde as coisas feias do mundo não entram. Foi este o quarto onde cresci, em casa dos meus pais, e onde passei tantos momentos maravilhosos com a minha música e os meus livros, com a minha escrita e o meu silêncio. Agora que cresci, que tenho a minha casa e que divido o meu quarto com outra pessoa, ele deixou de ser o meu espaço para ser o "nosso" espaço. Os meus livros partilham agora prateleiras com livros holandeses, as fotografias passaram a ser de nós dois e não de noitadas com amigos no Bairro Alto, a escolha musical é mais selectiva já que não são todas as pessoas que acordam bem-dispostas ao som da minha música, a televisão é bem maior do que eu desejaria para o meu quarto, aquelas meias deixadas pelo chão aos pés da cama também não são minhas e queimar incenso é parte do passado (eu gosto, mas há quem fique com dores de cabeça).
Não há nada mais especial do que partilhar o quarto com a pessoa que se ama, mas que se perde algo de precioso é um facto! A verdade é que agora que somos "nós" e não apenas eu, o quarto deixou de ser o meu mundo para passar a ser uma extensão da nossa casa.
Espero sinceramente que seja assim para sempre, e não há mais ninguém com quem eu quisesse partilhar mais o meu quarto do que contigo, mas deixa-me sentir saudades. Querer recordar o passado não significa estar descontente, com o presente (até rima!).