19.9.09

Haruki Murakami 村上春樹

Para quem não sabe quem este senhor é, para quem nunca tenha ouvido falar nele ou para quem já ouviu este nome mas ignorou prestar atenção aos seus livros, aqui vai um conselho: leiam!
Amante de literatura, do surrealismo e da música jazz, Murakami tornou-se sem dúvida num dos meus escritores favoritos. Consigo lê-lo vezes sem conta sem nunca perder o interesse e o fascínio que senti da primeira vez. Os seus livros transportam-me para um mundo distante, impensável, coberto de mitos e sonhos!

Também quero!!!

17.9.09

O Homem estátua

(photo by ?)

Lembro-me de ter uns 7 anos de idade e de passear com os meus pais e irmã pela Baixa de Lisboa, numa manhã de sábado em que cumpríamos o ritual de, juntos, tomarmos o pequeno-almoço na pastelaria Nicola, fazermos as comprinhas no Jerónimo Martins, brincarmos com instrumentos de música nas lojas Valentim de Carvalho e de passearmos tranquilos por aquela zona linda da cidade. Andávamos os 4 juntos e ríamos, conversávamos, os meus pais contavam histórias, eu e a minha irmã discutíamos por uma coisinha de nada para 2 minutos depois andarmos de mãos dadas esquecidas do que tinha causado aquela briguinha sem importância nenhuma, passávamos horas em lojas de livros e de música e nunca nos cansávamos!
Não guardo muitas recordações da minha infância. Não sei porquê, mas até aos meus 9 ou 10 anos é tudo muito vago. Mas lembro-me de algumas coisas, ou pelo menos da forma como elas me faziam sentir na altura - feliz e segura. Uma delas eram estes passeios pela cidade com a minha família, aos sábados de manhã. Conhecem aquele cheiro da cidade, numa manhã de sol em Outubro? Esse mesmo. Consigo sentir esse cheiro só de me lembrar daqueles passeios!
Foi num desses sábados, ao passear com os meus pais e irmã na Baixa de Lisboa que vi um homem-estátua pela primeira vez. Enfiado num fato de linho de côr branca, com a cara toda pintada de branco, sapatilhas de ballet brancas e um lenço bastante longo e feminino na cabeça (branco!). Deu-me vontade de rir, vontade de me deixar ficar em frente a ele e observá-lo durante horas seguidas e ao mesmo tempo (e este foi o sentimento mais dominante) senti dificuldade em olhá-lo, como se o facto de eu me deixar ali pasmada a olhar para ele fosse falta de educação, como se isso podesse causar-lhe algum desconforto ou vergonha... achei que ele podia sentir-se envergonhado se eu o ficasse a olhar durante muito tempo... mesmo 10 segundos já seria tempo a mais, achei! Um homem-estátua é algo que não se fica a observar, é algo que se vê. De relance, enquanto se anda pela rua e se lhe passa ao lado. Foi isto que pensei e senti naquela altura, e foi nesse momento que percebi que o homem-estátua me transmitia alguma pena... secalhar nem era necessário eu sentir-me assim em relação a ele, quero dizer, quem não gosta mesmo de estar no centro das atenções, não se vai vestir daquela maneira e pôr-se em cima de um banquinho de cozinha, horas a fio sem mexer um músculo, no meio de uma rua movimentada de Lisboa! Pois não? Mas receber atenção também não pode ser o único motivo atrás da razão que leva alguém a fazer isso. Quem gosta mesmo de atenção gosta de mostrar a cara também. O homem-estátua é anónimo. Respeito no entanto o facto de um homem-estátua ser discreto, não é como os palhaços do circo que nos sufocam com actos ridículos para chamar a atenção. Esses sim, são tristes e dão-me vontade de rir. No pior sentido possível!
Há uns meses atrás estive em Lisboa e fui saír com uns amigos. Nessa noite andamos por sítios onde andei nos tais sábados de manhã com a família. E nessa noite vi um homem-estátua. Numa rua pouco iluminada e deserta àquela hora da noite, não olhei bem para ele, vi-o só de relance, como fazemos quando já não se tem 7 anos de idade. Mas fiquei a pensar nele enquanto descíamos pela rua abaixo, e mais uma vez perguntei-me porque é que alguém faz aquilo. Não sei mesmo. Admiro a dedicação e esforço, tanto físico como mental que algo do género requer, mas este admirar não é suficiente para deixar de me perguntar o porquê. E também nunca me lembrei de o perguntar a um homem-estátua, uma vez que não se é suposto falar com um homem-estátua. Eu pelo menos não os acho muito convidativos a uma conversa. E mesmo que o fossem, provavelmente eu nunca o perguntaria. Eu também não sou muito convidativa a uma conversa com estranhos. E a verdade é que nem me interessa muito. É mais curiosidade no momento do que interesse.
Mas mais do que talvez perguntar porque é que fazem aquilo, o que eu gostava mesmo de fazer muitas vezes é de distraí-los, fazê-los rir, estragar-lhes o acto, provocar-lhe uma reacção, fazê-los de suar de nervos ao tentarem não se mexer, fazê-los chorar! Não, não sou sádica. A verdade é que nunca o fiz (ainda, pelo menos)... tenho é uma imaginação fértil e isso até nos valeu a todos umas boas risadas naquela noite!
Só o homem-estátua é que não se ri. E mesmo aqueles que o fazem, na maior parte dos casos não se riem de verdade, é apenas um efeito criado por maquilhagem. Os poucos que mostram algo parecido com um sorriso, fazem-no com o olhar e são esses que me fazem perguntar no que é que pensam enquanto olham para as pessoas que se movimentam de um lado para o outro nas ruas. Ás vezes tenho a sensação de que pensam algo como "vocês nem sabem o que perdem", como quem tem a sabedoria de dois aspectos da vida com ritmos diferentes e opostos, enquanto todos nós só sabemos como é andar de um lado para o outro a ritmos alucinantes. Até entendo que pensem e sintam isso, se fôr esse o caso, mas eu prefiro outras formas de encontrar a minha calma. Quando leio um bom livro, vejo um filme interessante, visito o blog de uma amiga minha que me fascina cada vez mais pela forma como olha para as coisas e as fotos que faz, converso com o meu melhor amigo ao telefone durante horas, revejo fotos de férias ou oiço música que goste consigo também afastar-me do mundo e das coisas, a um ponto em que me sinto distante de tudo. Nunca o conseguiria fazer no meio de uma rua, vestida como quem vai para um baile de máscaras, com a cara pintada e a convidar olhares. Tenho a certeza de que sentiria despida, nua, desprotegida. Secalhar era o sentir-me assim que me permitiria ficar ali aterrorizada e "congelada", horas a fio sem mexer um músculo!

16.9.09

(photo by ?)
Estava a ver um documentário sobre empresas que procuram a ajuda de psicólogos para melhor obterem do grupo a que se dirigem o resultado desejado. Por exemplo, sabiam que há lojas de moda em que no interior dos provadores de roupa não são colocados espelhos de propósito? O objectivo é conseguir fazer o cliente saír do provador à procura de um espelho para ver se o casaco lhe veste bem ou se aquelas calças lhe fazem o rabo parecer gordo, e ser imediatamente abordado por uma empregada/ vendedora. Está tudo pensado! Eu não me importo que certas coisas estejam previamente pensadas com um certo objectivo, o que me incomoda muitas vezes é que funciona. Não era bem mais interessante se uma situação destas corresse de uma forma inesperada, depois de tanto esforço da empresa e de um grupo de psicólogos chatos se terem dedicado a algo parecido? Quem é que precisa de espelhos? Estas calças são confortáveis, as mangas deste casaco não me parecem longas demais...
Confio no meu feeling e não me vou olhar no espelho, até porque depois de o fazer numa loja nunca mais o faço - ou olhamos para uma imagem nossa reflectida num espelho a todos os minutos do dia? Eu não pelo menos! Se me sentir bem, parto do princípio que tou com boa aparência, mas mesmo assim sei que não vou agradar a todos, não tento nem preciso - quero é agradar-me a mim mesma sentindo-me okay!
Até na porcaria do McDonnald's há o dedinho de psicólogos com o objectivo de fazer com que os clientes comprem a comidinha que querem bem depressa e que abandonem o "restaurante" o mais depressa possível. Para se obter este resultado, foi colocada de propósito em restaurantes McDonnald's uma luz feia e monótona, cadeiras com as costas viradas para a porta e toda uma atmosfera de desconforto (embora à primeira vista possa parecer o contrário). Acho tão estranho, que uma empresa contracte psicólogos que se encarregam de garantir que os clientes dessa mesma empresa passem um mau bocado... e que essa empresa possa crescer até se tornar um dos "restaurantes" fast food com mais sucesso no mundo. O crime compensa não haja dúvida. E é esse mesmo o problema!
Eu sou uma pessimista. Mas não sou uma pessimista radical, isso garanto. Se há pessoas que se sentem em certas situações entre a espada e a parede por exemplo, eu encaro situações idênticas de uma forma mais relaxada, do género: "Ao menos tenho uma parede para me encostar!" A realidade é sempre tão subjectiva, depende mesmo da forma como olhamos para as coisas.
A sério, olhem em volta - um optimista nos dias que correm não é mais do que um pessimista mal informado! Pessoas que dizem não fazer mal a uma mosca, são apenas fracas e lentas demais para apanhar uma.
Sinceramente, acho que nos dias que correm temos sorte se soubermos quem somos e o que queremos. E se há jogos que não se querem jogar, inventamos outros. Ninguém devia decidir por mim se eu jogo às cartas ou se eu jogo bowling. Jogo o que quero, quando quero, como quero e se não me apetecer ler as "regras do jogo" antes, então não leio. É um jogo e no meu entender sou eu que ganho ou que perco, por isso fuck off!
Embora já saiba bastante sobre as coisas que me rodeam, ainda dou por mim pasmada ao ver a facilidade com que tantas pessoas se deixam levar por este tipo de manipulação comercial, que as faz consumir que nem doidas. Promoções em supermercados dizem oferecer um producto grátis na compra de outros dois produtos quaisquer; se fosse mesmo grátis não havia qualquer tipo de obrigação! Embalagens coloridas de doces, rebuçados, gomas e chocolates são colocadas estratégicamente ao lado da caixa, para enquanto se espera a vez deixar-se seduzir por tanto açúcar acabando por se comprar uns docinhos que inicialmente nem estavam no plano comprar ("não faz mal, começo a dieta ámanhã", pensam com cara de culpa). Eu sou prática, vou ao supermercado com uma lista na mão (para não me esquecer de nada), pego no que preciso, dirijo-me à caixa, pago e saio muito depressa. As luzes ou a música que usam para me tentarem fazer passar muito tempo ali dentro não funcionam comigo. É assim que compro tudo o que preciso - sei o que quero, procuro, encontro, pago e ponho-me a andar.
Há lugares mais interessantes para mim do que uma loja. Tirando "Barnes & Noble" em New York claro, onde qualquer amante de livros se perde entre páginas de romances, crónicas, livros de arte e música, livros de fotografia, viagens, povos e culturas, espojado em sofás confortáveis a beber café starbucks. Se eu quiser sentar-me ali durante 24 horas a devorar livros, cafeína e donuts sou bem-vinda! O que é que eu podia querer mais?
(Os psicólogos do Barnes & Noble é que são espertos, funcionou comigo!)

15.9.09

(photo by ?)

Sempre que vou a casa de alguém pela primeira vez reparo, e acho que mesmo que tentasse não o fazer repararia na mesma, em que tipo de coisas é que elas lêm. Muitas vezes surpreendo-me não pelo que lêm, mas pelo facto de não lerem - não há livros, jornais, revistas, nada. Outras vezes dá-me vontade de rir quando os únicos livros que vejo têm lombadas coloridas e estão colocados numa prateleira perto do fogão. E tantas outras vezes, seja em casa de pessoas que não lêm nada ou de pessoas que só lêm as notícias sensacionais nos jornais baratos (do género: "A Rainha Beatrix visitou, ontém de manhã, uma loja de calçado em Amsterdam" - a sério?!!??! e ninguém me avisou a tempo?) dou por mim a sentir-
-me indignada com a quantidade industrial de revistas... bem, detesto a palavra, mas aqui chamam-nas de revistas femininas (ui, só o nome dá-me uma ligeira dor de cabeça). Revistas tipo Caras, Cosmo, Olá!. Revistas Femininas diz tudo, não diz?
Ao que parece as revistas femininas dizem tudo, sim! Dizem tudo o que é necessário saber para uma vida com grande sucesso profissional, amizades eternas, vida social animada, filhos e marido felizes, uma casa de sonho e uma vida sexual saudável (principlamente quando as leitoras já passam dos 60 e lhes é prometido e ensinado, normalmente através de 10 fantásticas dicas como ter uma vida sexual de uma mulher de 30!). Já dei por mim em casa de pessoas que conheço a sentir-me pasmada pelo facto de terem a mesa da sala cheia destas revistas... tipo sala de espera. Não há nenhuma sala de espera que não tenha uma mesa colocada no centro de um círculo de cadeiras incómodas cheia de revistas destas. Seja no dentista, no consultório médico, num balcão de serviços públicos, no veterinário ou (a minha preferida) no ginecologista, lá está a mesa cheia de material interessante para se ler enquanto se espera por uma consulta para a qual nunca se tem a mínima paciência, como quem está de castigo. Uma sala de espera só seria interessante, no verdadeiro sentido da palavra, num filme do Lynch. Ou se tivéssemos na companhia de uma daquelas amigas que também gosta de se rir de situações incrivelmente chatas, mas essas nunca nos lembramos de convidar para uma ída ao médico.
E o que é que os homens que também enfrentam uns 20 minutos (com sorte) numa sala de espera têm para ler? Vejamos... revistas com motas, automóveis rápidos e gajas boas em anúncios a cerveja. Ainda bem, os desgraçados, imaginem lá um homem com uma "revista feminina" nas mãos... seria o mesmo que eu a tentar ler um texto em árabe! Á primeira vista parece interessante e bonito, mas está tudo em código e não se percebe nada. Para ser sincera, dêem-me a revista com os carros e as gajas boas, pelo menos posso folheá-las sem que nenhuma lição para a minha felicidade me seja impingida. E já agora, eu não preciso de ler o meu horóscopo para saber como a minha semana está a correr, basta olhar-me em volta - estou numa sala de espera a passar uma séca enorme e este textozinho diz-me que o signo de escorpião terá uma semana rica em novas aventuras e desafios. Sim, que aventura excitante está a ser esta espera sem fim!
Enquanto espero (e que mais há para fazer numa sala de espera?) não consigo evitar fazer um scan muito rápido do ambiente. Já aconteceu, confesso, não havendo nada que me possa entreter esconder-me dentro de uma destas revistas. Como são informativas! Estão lá todas as dicas em como alcançar tudo o que se deseja. O leitor vê-se confrontado com um teste constituído por um grupo de perguntas, para as quais tem 5 diferentes possibilidades de resposta. Depois de fazer o teste, é só ver qual é o resultado! Tão bom, imaginem lá se estas coisas não existissem, como é que poderíamos saber se estamos felizes com a nossa vida amorosa/ profissional/ sexual!? Estes testes dão ao leitor, na maioria das vezes, o resultado que ele espera e quer ouvir, mas quando a regra falha não faz mal! Lá vem um artigo muito interessante na página imediatamente a seguir em como modificar e melhorar essas mesmas áreas da vida. Fantástico! Revistas femininas... quem leu uma, leu todas. E mesmo assim, há quem as compre diáriamente.
No fim-de-semana passado fui ter com uma amiga minha a Hoorn para um cafézinho, e a caminho da paragem de autocarro para fazermos o regresso a casa ela sai-se com esta: "Tenho que parar no quiosque para comprar a Margriet" (uma das revistas mais vendidas na Holanda e uma das piores coisas que já vi na vida!), "parece" - continou, "que vem lá um artigo esta semana sobre carreira e filhos que é interesante!" Precisavam de ver o entusiasmo dela. E precisavam de ver a minha cara. (Detalhe curioso: ela não trabalha nem tem filhos, mas é sempre bom aprender algumas coisinhas novas para se poder formar uma crítica forte em relação à vida dos outros).
Quem não sabe a quantas anda não vai encontrar o que precisa numa revista!
O que estas revistas deviam receitar em vez de conselhos baratos, lições de vida inúteis e prozac, devia ser para não se acreditar em tudo o que se lê, ouve e se diz. Para se duvidar mesmo do que se pensa, pois os nossos instintos estão tantas vezes errados. É melhor nem sempre nos levarmos tão a sério, é quase arrogante fazê-lo e a vida sem uma boa dose de humor não tem mesmo piada nenhuma. Fazer coisas novas e diferentes todos os dias, mesmo quando o horóscopo nos diz para sermos cautelosos esta semana, aprender a rir-se de si mesmo, dançar ao som de uma música que se gosta quando mais ninguém está a ver, divertir--se com um grupo de amigos, olhar para o mundo com uma mente aberta e explorar o nosso mundo interior, ser verdadeiro a nós mesmos, viver sem medos nem reservas.
Mas uma revista assim não venderia tão bem - as pessoas gostam que lhes seja dito o que precisam de ouvir, mesmo que seja mentira e é isso que nunca ninguém diz nas revistas.

14.9.09

Mood Killers

(photo by ?)

Adoro Coca-Cola. É a melhor coca e a melhor cola do mundo! Qual "branca" ou UHU! Coca-Cola sim... aaaahhhh, enjoy!
Um dia destes estava sentada numa esplanada e pedi uma Coca-Cola. O empregado trouxe-me uma lata de Pepsi, já aberta. Dois enormes erros em tão pouco tempo! Eu disse logo que não. Não quero uma Pepsi, quero uma Coca-Cola e não quero uma lata, quero uma garrafa. Fechadinha. Retire a carica à minha frente, por favor. Não é que eu tenha daquelas paranóias de que me possam meter algo na bebida, nem tenho medo de germes, mas acho que uma Coca-Cola só sabe verdadeiramente como é suposto saber quando se obedece a este ritual. Chamem-me esquisitinha, não me importo. Mas como é que eu podia beber a minha Coca-Cola se não tivesse ouvido aquele barulhinho que se ouve quando a carica salta? Gosto das coisas como gosto e se isso for ser esquisitinha, então sou esquisitinha e quero continuar a ser!
O gajo olhou para mim de lado, com um ar enjoado e ainda revirou os olhos antes de se afastar contrariado. "Palhaço", pensei. Quem não sabe a diferença entre uma Coca-Cola e uma Pepsi não devia trabalhar num café. Se eu pedir uma canja de galinha e me trouxerem uma água fervida com um caldo knorr lá diluído, não esperem que eu fique em silêncio. Se não me fizesse nenhuma diferença, sentava-me numa esplanada e dizia ao empregado de mesa para me trazer o que lhe apetecesse. Mas não, ao sentar-me numa esplanada apetece-me consumir algo e é isso que eu espero. Se eu pedisse um sumo de laranja natural e me trouxessem um sumo de laranja de pacote nem era um drama, se isso fosse previamente combinado comigo. Nem sou muito complicada, menos no que se refere à Coca-Cola. Pepsi é uma coisa cheia de açúcar e sem gás, Coca-Cola é uma bebida maravilhosa e refrescante, também cheia de açúcar felizmente, mas com muito gás e um gosto único! (Enjoy!)
Nem é o facto de alguns estabelecimentos não venderem Coca-Cola que me incomoda. O que me deixa de facto a bater mal é quando me trazem uma Pepsi e esperam que eu a beba com a mesma satisfação que beberia uma Coca-Cola. Não é o mesmo! Será que ninguém sabe disso? Se fosse o mesmo não se chamariam coisas diferentes. Pelo menos digam-me se só tiverem Pepsi, ao menos dão-me a possibilidade de escolher outra bebida qualquer. Mas neste dia até foi mais cómico, pois havia Coca-Cola e ele trouxe-me uma Pepsi na mesma. "É o mesmo...", ainda reclamou baixinho.
E depois há daqueles mood-killers, daquelas pessoas que muitas vezes se encontram na mesma esplanada, apenas a uma mesinha de distância, que gostam de iniciar uma conversazinha... ai, por favor deixem-me descansada! Será que o facto de eu me sentar aqui de livro nas mãos, cabeça baixa e óculos escuros não diz o suficiente? Um homem estava sentado na mesa ao lado da minha e, ao fim da tal vinda, ída e volta do empregado na situação da Coca-Cola versus Pepsi virou-se para mim com um piscar do olho e disse, como quem quer alertar-me para algo de muito errado que estou prestes a fazer: "Sabia que numa garrafa de Coca-Cola há o equivalente a 22 cubos de açúcar, hum?" Olha o idiota, a querer partilhar a sua sabedoria comigo! Dei-lhe logo com alguns factos sobre sobre o consumo de álcool, pois vi pelos vestígios na mesa dele que já ía na quinta cerveja e aproveitei para lhe atirar com umas dicas sobre o que a exposição excessiva da pele a solários pode causar à saúde, para não falar da aparência; o homem era cor-de-laranja! Nem sei como ele não tropeçou e caíu ao levantar-se para se ír embora, não pelas cervejas que tinha bebido, mas com a rapidez com que o fez! Ri-me contente por dentro, dei finalmente um golinho da minha Coca-Cola e levantei ligeiramente o copo no ar, como quem faz um brinde, ao pensar novamente para os meus botões "enjoy"!
Estes mood-killers... pessimistas de nascença, que não só esperam o pior mas que espalham isso de uma maneira quase malvada. É como alguém libertar um vírus de propósito, só para chatear. Esperam o pior e desejam o pior - o que é bem pior! Tenho a impressão de que certas pessoas de idade têm mais este hábito do que pessoas mais novas. Dizem ser mais sábias, mas eu acredito que não é nenhuma forma de sabedoria que tentam incutir, mas sim uma espécie de repreenda que é provavelmente o resultado de uma certa inveja, de uma dificuldade em aceitar a idade que se tem. Quando se envelhece com o tempo e não com a vida, torna-se assim... azedo. Vêem alguém satisfeito e logo se apressam a tentar desfazer a satisfação que o outro sente. Pessimistas maldosos. Crueldade, cegueira. Conheci uma pessoa assim. Sempre que se partilhava algo com ela recebia-se uma cacetada de negativismo. Se alguém lhe dissesse que estava apaixonado e feliz, junto da pessoa de quem se gosta já há 6 meses a reacção seria: "Ai que bom, fico tão contente! 6 meses hã, esperemos que dure!" ("esperemos"... plural, o que significa isso? Quem são vocês que esperam?); se alguém lhe desse a notícia de que um casal conhecido estava à espera de bébé a reacção seria : "Ai que maravilha, devem estar tão felizes depois de tanto tempo a tentar engravidar, só esperemos que corra tudo bem desta vez..." (novamente o "esperemos" e aquele tom de voz em que se sente sem margem para dúvidas de que o que esperam é exactamente o oposto, com um prazer maldoso inexplicável); ou mesmo quando alguém se sentia feliz fosse por que motivo fosse, saía-se com uma daquelas frases pobres: "Aproveita enquanto dura"- mais uma cacetada. Tinha tantas cacetadas para dar e vender que quase me dá vontade de rir a forma como morreu, no sentido que a última cacetada deu-a a si mesma.
Mood-killers... vivem para estragar o ânimo dos outros e tudo o que os rodeia não é mais do que mood-killers killers'. Porque aqueles que eu vejo como mood-killers vêem-me a mim da mesma forma, por motivos diferentes e de maneiras distintas, mas o processo até é mais ou menos o mesmo. A diferença é que eu os deixo em paz e deixo cada um viver como quer, mas poupem-me dos falsos moralismos, da pobre sabedoria e das frases feitas.
(Obrigada, mas não. Porque é que eu beberia uma Pepsi havendo Coca-Cola?!)

13.9.09


Ás vezes só me apetece gritar! Gritar tão alto até me faltar todo o ar nos pulmões, para que tudo se torne um pouco mais suportável, mais lógico, mais claro. Mas quanto mais alto eu grito, menos sentido as coisas fazem. Encarar as coisas com tanta insanidade nunca funcionou, mas possuo uma teimosia enorme que me leva a insistir nos mesmos métodos. E assim grito, sem resultado nenhum. A verdade é que mesmo não atingindo o resultado desejado, recebo sempre uma satisfação qualquer neste processo. O que faz sentido, se não fosse de alguma forma recompensada pelo meu comportamento, provavelmente já o tinha modificado há muito tempo. Sou teimosa sim, mas não sou estúpida. Depois de cada emoção vem o grito, e depois de cada grito vem uma confusão ainda maior de ideias. E de onde vem esta vontade enorme de gritar quando sinto certas coisas? Porque é que as emoções me causam tanta dor e ao mesmo tempo sinto que não sou nada sem elas? Tento compreendê-las para me compreender a mim mesma, tento organizá-las e pô-las juntas para que façam algum sentido, mas acabo por me perder ao fazê-lo.


Queria saber como se sente depois de se terminar um puzzle. Mas não sei. Nunca terminei nenhum. Mas já comecei muitos! O que sempre acontece é que perco, algures a meio, o interesse/ a motivação, seja lá o que for, e acabo por me perder nos meus sonhos de encontrar um puzzle novo em folha. E encontrá-lo nunca é difícil, a certeza que sinto a priori de que não o irei terminar é que está sempre presente, o que é um empata! Mas sou teimosa. Faço o que já fiz com a certeza de que o irei fazer novamente. Agora que penso bem, a teimosia também pode ser um sinónimo para estupidez...


(Janeiro 2008)