12.8.09

(illustration by Paula J. Becker)


Fim de tarde. Mais um dia de inverno chuvoso, frio e cinzento - uma verdadeira fotografia a preto e branco, mas sem o aspecto romântico. Um dia longo e cansativo.
O que mais quero agora é chegar a casa, tomar um longo banho, vestir o meu pijama preferido e deixar-me caír para cima do sofá a ler um livro ou a ver um filme. Tranquilidade... mal posso esperar!
Já falta pouco. Saio na paragem de autocarro da minha rua e só preciso de andar uns 30 segundos até chegar à porta de casa. Já tenho as chaves na mão desde que entrei para o autocarro, ponho a chave na porta, entro e está escuro. Fiquei com a impressão de que estava sózinha e de que ía ter a casa por minha conta, o que vinha mesmo a calhar! Depois de uma semana de loucos em que nem festejei sequer o meu aniversário com a bela desculpa de ter calhado a uma 4a feira e de as 4as feiras serem um dia neutro e muito chato, nada me pareceu mais agradável do que a ideia de chegar a casa nesta 6a feira à tarde e iniciar o meu fim-de-semana fazendo absolutamente nada!

"Surprise!"

Caíram-me balões e serpentinas na cara, e sorrisos exagerados e palavras de festejo fizeram-me desejar por alguns momentos, ser cega e surda. Alguém resolveu mostrar ao mundo que eu gosto secretamente do Paulo Gonzo e começou a tocar "Heróis do Bar" ao fundo... parabéns, beijos, abraços... fuck! Agora já não podia estar cansada em paz.
Surpresa é algo que acontece de forma inesperada, do género: dizer-se a alguém por boa-educação mi casa es su casa e no domingo seguinte, de manhã bem cedinho - surpresa! Ou um grande amigo dizer-nos que encontrou o amor da vida dele, tirar uma foto da carteira para partilhar a sua felicidade e vermos que está apaixonado por uma pessoa de bigode e barbas chamada Afonso - surpresa! Ou passar uma noite com um estranho, depois de muitos wiskys e poucas palavras e 9 meses mais tarde - surpresa!
Surpresas são um susto, isso sim! Uma armadilha, como ver um rato à andar às voltas até encontrar um pedaço de queijo curado, delicioso e - surpresa! "clack"...
Surpresas são isso, e nada mais: um (des)prazer inesperado. Acordem, surpresa a sério seria eu anunciar ser uma neo-nazi.
Gosto cada vez mais dos prazeres esperados, conquistados, desejados. O prazer está em surpreender-me a mim mesma dentro das minhas expectativas e não naquele sentido "surprise!" em que se sente obrigado a sorrir por fora e em que na maioria dos casos se chora por dentro. "Não me podias ter avisado?" - "Se o tivesse feito já não seria surpresa!" - "Exactamente. E obrigadinha".
Aprendi que as coisas que caiem do céu, mesmo as boas como balões e serpentinas, caiem muitas vezes no momento errado e por isso já não sabem tão bem como era suposto.
Planear cada vez mais o que se faz ou o que se quer fazer não é, no meu entender, uma forma de fugir aos riscos e às emoções. É uma forma que encontramos (ou que eu pelo menos encontrei) de abrir portas em vez de as deixar caír em cima de mim. A previsibilidade pode soar a algo tão chato... mas gosto de saber a origem de tudo e gosto cada vez mais de situações claras e de pessoas directas. Continuo sem saber o que vai acontecer a seguir e não posso nem quero controlar tudo o que vivo. Mas não quero ser apanhada de surpresa de maneiras em que em vez de me sentir fascinada sinto-me presa e obrigada a algo.
Do género: vê-me como eu realmente sou e surpreende-me da maneira certa.

(Novembro 2006)





4.8.09

O que ficou...

... foi aquela saudadezinha que não magoa, mas que sabe bem, dá força e faz sorrir. Foram as boas recordações de momentos únicos revividos junto a amigos e família. Foi a recordação do prazer que é voltar aos lugares que nos são familiares e que sabem a casa. Foi o sentir novamente quem realmente sou, de onde venho. Foi com certeza uma enorme vontade de voltar. E só quando sinto esta vontade de regressar é que me pergunto, inevitavelmente, porque é que algum dia me vim embora?... Mas a resposta é clara para mim, a minha emoção (e a saudadezinha de que falo) é que me tentam pregar partidas! Gosto de onde estou, e um dos motivos é exactamente o facto de poder ter o prazer imenso e único de voltar. Esse prazer seria menor se lá estivesse sempre. Vivo o melhor de dois mundos, de duas vidas, de duas casas... talvez isto só seja compreensível para outros que passem ou tenham passado pelo mesmo, mas a verdade é que me sinto sortuda por isto!
Obrigada a todos que me receberam mais uma vez de braços abertos, foram umas férias inesquecíveis!
xx

23.7.09

(photo by ?)

Cada vez mais desejo viajar. Correr o mundo, ver o mais possível de diferentes lugares e pessoas. Mais do que nunca desejo ser mais nada do que eu mesma, de mochila às costas, sem um rumo previamente definido. Quero saír do casulo antes que ele se feche e me prenda.
Não falo de férias. Quando vamos de férias temos a tendência para encher malas com roupas, livros e tantas outras coisas que nos ocupem naquele tempo que temos livre, mas que também nos trazem algum sabor a casa. Falo mesmo de seguir a caminho com o menos possível que me lembre do dia-a-dia para que possa receber melhor o que todos os lugares novos têm para me oferecer. Quero viajar para me afastar do eu que vejo todos os dias, quero umas férias do quotidiano, dos hábitos diários e da rotina, quero viver no momento em vez de planear os momentos que vivo e quero fazê-lo de olhos abertos e curiosos, pronta a aprender mais sobre o mais possível. Quero viajar para lugares novos onde também eu serei desconhecida e apreciar esse anonimato; olhar para dentro de mim e ver-me de perto.
Quero aproveitar a liberdade que tenho para o fazer e acho que o quero fazer sózinha. Valorizo a solidão e gosto de riscos.
Quero fazer uma daquelas viagens que me ensinem sobre a minha natureza, a minha coragem, os meus instintos e conhecimento.
Nem preciso de máquina fotográfica! O que realmente somos também nunca se vê em fotografias...
(Janeiro 2008)

3.6.09


O tempo divide-se em 3 - o ontém, o hoje e o ámanhã.

O ontém já passou e já está feito. O ámanhã sabe-se lá o que traz. Destas 3 etapas só há uma que conta - o hoje, o agora, o já.

Mais do que isso não podemos controlar, fazer ou saber. O que importa é este momento - o agora mesmo.

Tic-tac, tic-tac... o tempo não perdoa.


"O tempo não para." (Cazuza)

14.4.09

Somos quem somos

(illustration by ?)

Desde que aqui moro que vejo todas as manhãs, um homem que passeia a pé passando em frente às portas de vidro da minha sala. Por volta das 8 horas ele passa numa direcção, a caminho sabe-se de lá do quê ou de quem, e uma meia hora mais tarde lá passa ele de volta na direcção contrária. Uma ída e volta aparentemente sem sentido nenhum para quem observa, mas com o passar do tempo e o meu olhar curioso fui aprendendo que há um motivo naquela caminhada que o homem faz de manhã. Não preciso de saber qual é, embora a minha mente me empurre para o caminho irresistível que é a especulação. E faço-o. Se a curiosidade matasse eu já cá não andava de certeza!
Quando ele passa em frente à minha casa, por volta das 8 horas da manhã, fá-lo de cabeça erguida e pose segura, passos determinados embora não ande depressa demais. O que eu vejo é alguém que vai a caminho de algo que o motiva, que lhe dá força, pelo qual ele sente paixão. Algo que provavelmente lhe dá o sabor e a razão de estar vivo.
São 8h40m aproximadamente. O homem regressa sei lá de onde ou da companhia sabe-se lá de quem, passando novamente na tal direcção contrária novamente em frente às minhas portas de vidro da sala. Cabeça baixa, pés arrastados, cansaço no olhar e na postura... toda a sua aura é tremida, pesada e desfocada, e consigo quase sentir a fraqueza que ele sente, o medo, a dúvida...
Porque é que todos os dias este homem consistentemente faz uma caminhada que parece matá-lo aos poucos? Onde estará a razão para isso? Onde é que ele vai? Do que é que ele anda à procura?
Porque é que todos os dias eu abro as cortinas das minhas portas de vidro, para o poder ver passar - de ída, com uma postura que me faz quase querer acompanhá-lo nessa caminhada cedinho de manhã para que também eu possa aproveitar aquela força com que ele começa o dia; e de volta, com uma nuvem cinzenta que o faz parecer andar às escuras mesmo que o dia esteja de sol, e que inevitavelmente me faz fechar as cortinas num gesto rápido e quase embaraçoso, para que ele não veja que eu o vi naquele estado.
Mas acho que ele me vê. Tenho a certeza que ele me vê. Nunca de ída, mas na volta, quando está de cabeça para baixo, quando se sente arrasado. Ele não olha para mais nada senão para o chão que pisa, mas eu sei que ele me vê.
Ao contrário da curiosidade que eu sinto em relação a este homem, enquanto pessoa desconhecida e tão familiar ao mesmo tempo, tenho a certeza que ele não pensa mais de mim do que uma mulher que todos os dias às 8h00m e mais tarde por volta das 8h40m, se encontra a olhar (in)discretamente pelas portas de vidro. Ele não parece incomodar-se com isso. Quando ele vai sente-se bem demais com tudo o que é e o rodeia para se incomodar com o meu olhar interessado; quando ele regressa fá-lo de uma forma tão desvastante e triste que mesmo que eu estivesse com as portas de vidro abertas e uma arma apontada na sua direcção, ele não se importaria... secalhar seria esse o único momento em que ele me olharia nos olhos e diria, baixinho mas com determinação "do que é que estás à espera?".

Um dia tem 24 horas. Não sei nada deste homem nem sobre o que ele faz durante o dia, a não ser uma caminhada todas as manhãs que dura pouco mais que meia-hora. Mesmo nessa caminhada não sei quem ele é, o que pensa ou onde vai. Vejo-o durante 15 segundos à ída e talvez durante uns 25 de regresso.
Nunca precisei de saber mais nada sobre ele do que aquilo que sei, e isso é apenas o que eu imagino, o que escrevo na minha mente sobre o "homem que vive algures na minha rua e que passa à frente da minha casa todas as manhãs".
Nunca precisei de saber mais nada sobre ele do que aquilo que já sei - até hoje, quando me apercebi de que já eram 10h45m e o homem não tinha passado em frente às minhas portas de vidro. Ou será que ele passou e eu não o vi?
Não. Eu tinha-o visto, tivesse ele passado aqui em frente como é habitual.



24.3.09

Boas Recordações - nascido antes de 1986

(photo by ?)


Há algum tempo atrás recebi um e-mail, daqueles que chegam com um grande FW: à frente do título e que notamos logo que não foi especialmente enviado para a minha pessoa, mas para outras 3 mil também. Tenho que admitir que o meu dedo estava já por cima da tecla del, uma vez que apagar este tipo de mails se tornou quase um reflexo, mesmo antes de os ler. O que é certo é que mesmo quando dou o benefício da dúvida e os leio, a tecla del é utilisada na mesma! Penso quase sempre "as coisas que me mandam....", arrependo-me por ter dado o benefício da dúvida, sinto-me estúpida se os leio até ao fim e sinto-me envergonhada demais para reenviar tais mensagens seja a quem for... a não ser que queira chatear alguém, claro!
Com este mail aconteceu quase o mesmo, a tecla delete pronta a ser utilisada, resolvi dar o benefício da dúvida e lê-lo - por 3 motivos: levo a pessoa que mo enviou a sério, o título "Boas Recordações", que embora possa soar piroso até dizer chega me despertou alguma curiosidade e o documento word chamado "se nasceste antes de 1986" que vá-se lá saber porquê me fez querer ver que mensagem era esta...

"De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípios de 80, não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque as nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas, em tinta à base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos. Não tínhamos frascos de medicamentos com tampas "à prova de crianças" ou fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas. Quando andávamos de bicicleta não usávamos capacetes. Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e airbags, e viajar no banco da frente era um bónus! Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa, e sabia bem. Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos sumos com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora. Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso. Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns travões. Depois de acabarmos num silvado aprendíamos, mas com um sorriso nos lábios! Saíamos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso. Não tínhamos PlayStation, X Box. Nada de 40 canais de televisão, filmes de vídeo, home cinema, telemóveis, computadores, DVD, chat na Internet. Tínhamos amigos e se os quiséssemos encontrar íamos á rua. Jogávamos ao elástico e à bola até nos cansarmos. Caíamos das árvores, cortávamo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal. Havia lutas com punhos mas sem sermos processados. Batíamos ás portas de vizinhos e fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados. Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não íamos a pé para a escola - não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem. Criávamos jogos com paus e bolas. Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem. Eles estavam do lado da lei. Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre. Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas. Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo.
... És um deles? Parabéns! Passa esta mensagem a outros que tiveram a sorte de crescer como verdadeiras crianças, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas, "para nosso bem". Para todos os outros que são mais novos, pensei que gostassem de ler acerca de nós. Isto, meus amigos, é surpreendentemente medonho... E talvez ponha um sorriso nos vossos lábios. A maioria dos estudantes que estão hoje nas universidades nasceu em 1986. Chamam-se jovens. Nunca ouviram "We are the world" e não sabem o que foi o Live Aid. Nunca ouviram falar de Pink Floyd, The Doors ou Johnny Cash. Para eles sempre houve uma Alemanha e um Vietname. A SIDA sempre existiu. Os CD's sempre existiram. O Michael Jackson sempre foi branco. Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo fosse um dia um "deus" da dança. Acreditam que Missão Impossível, Ocean's Eleven, Gone in 60 seconds e Charlie's Angels são filmes do "ano passado". Não conseguem imaginar a vida sem computadores ou telémoveis para receber e enviar sms's todo o dia. Não acreditam que houve televisão a preto e branco ou que pais e filhos se sentavam à mesa juntos para conversar e partilhar histórias daquele dia durante o jantar.


Agora vamos ver se estamos a ficar velhos...

1. Entendes o que está escrito acima e sorris.

2. Precisas de dormir mais depois de uma noitada.

3. Os teus amigos estão casados ou a casar e telefonam-te a informar-te que vais ser "tio"/"tia".

4. Surpreende-te ver crianças tão á vontade com computadores.

5. Abanas a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis, a comunicarem com os amigos por sms em vez de se sentarem juntos a conversar.

6. Lembras-te de programas de televisão como a Gabriela, O Tal Canal e até os desenhos animados apresentados por Vasco Granja (mesmo que não entendesses, como a maioria, do que se tratavam!).

7. Encontras amigos e falas dos bons velhos tempos.

8. Vais falar deste texto com amigos porque achas que vão gostar.



SIM, ESTÁS A FICAR VELHO, mas tivemos uma infância inesquecível!!!................"

12.3.09

What doesn't kill you....

(photo by Raquel P.)
Quem me conhece sabe bem que a minha vida sempre foi feita de acontecimentos insólitos, de inúmeras aventuras e altos e baixos. Há os momentos cómicos que me fazem rir sempre que penso neles e os mais dramáticos, que também são cómicos quando relembrados da forma que eu o faço!
Sempre gostei de montanhas russas e não há nenhuma que eu não me atreva experimentar, embora existam muitas que nos ponham à prova, tanto física como psicológicamente. E ainda bem, porque a verdade é que não quero viver só de altos por mais estranho que isso possa soar, mas preciso também dos pontos baixos para me sentir viva. São esses que me fazem olhar para as coisas de uma forma diferente, são esses que me deixam conhecer-me cada vez melhor a mim mesma e são esses que me permitem sonhar e viajar...
Este ano que passou foi estranho demais, quase como um teste ou uma prova de forças que claro que não perdi! Por mais difíceis que os desafios sejam eu sou mais determinada, teimosa e difícil ainda! Sempre soube, não me perguntem como, que iria passar por um teste destes mais ou menos nesta altura da minha vida. Não soube sempre como iria ser ou como iria enfrentar isso, mas agora sei.
Sempre gostei muito da expressão "what doesn't kill you makes you stronger" e agora, mais do que nunca, nada me faz mais sentido do que estas 7 palavras. Não quero entrar em detalhes para não soar dramática, por isso dizer isto é no meu entender suficiente: este teste tornou-me de facto ainda mais forte e aprendi a respeitar e admirar mais do que nunca a pessoa que sou e que me tornei nestes 33 anos de altos e baixos, aventuras, dramas e alegrias. Aprendi também quem são as pessoas que realmente importam, quem foram as pessoas que marcaram de algum modo a minha vida e das quais nunca me esqueci. Aprendi que as coisinhas pequeninas não têm importância nenhuma.
Cada dia é um novo dia, uma nova porta de oportunidades e felizmente está nas nossas próprias mãos abri-la, dar um passo em frente sem medos e explorar o mais possível - das coisas à nossa volta, dos outros (aqueles que importam) e claro de nós próprios.
E para aqueles que fazem parte da minha vida e que a marcaram de alguma forma, de quem eu nunca me esqueci nem esqueço e para os quais estou sempre pronta: obrigada.